Página Inicial Os Escritores Lista de Crônicas + Recente + Antiga



Víamos os nossos pés

Luis Fernando Verissimo

O outono é a única estação civilizada. A primavera é um descontrole grandular da natureza. O inverno é o preço que a gente paga para ter o outono, e por isso está perdoado. O verão é uma indignidade.

Eu deveria ser um par de garras serrilhadas escapulindo pelo chão de mares silenciosos, ou pelo menos um falso inglês como o Eliot. Clássicos ao pé do fogo, um vago cachorro e sherry seco contra o catarro. Um gentleman não deve suar, meu caro. As frutas têm suco, não um inglês. Nas colônias, os nativos suavam por nós, e... É sempre assim. Quando chega o verão começo a me imaginar em Londres, estocando meus tintos para o inverno. Mas é claro que não aguentaria duas semanas como inglês, sem começar a maldizer a umidade e a sonhar com o sol.

Mas não sou uma pessoa tropical. Minha terra preferida é o outono em qualquer lugar. No outono as coisas se abrandam e absorvem a luz em vez de refleti-la. É como se a Natureza etc. etc. (O verão não é uma boa estação para a literatura descritiva. Me peça o resto da frase no outono.)

Sempre digo que a praia seria um lugar ótimo se não fosse a areia, o sol e a água fria. É só uma frase. Gosto do mar. O diabo é que a gente sempre tem na cabeça um banho de mar perfeito que nunca se repete. O meu aconteceu em Torres, Rio Grande do Sul, em algum ano da década de 1950. Sim, crianças, em 1950 já existiam Torres, o Oceano Atlântico e este cronista, todos bem mais jovens. O mar de Torres estava verde como nunca esteve. Via-se o fundo? Via-se o fundo.

Víamos os nossos pés, embora a água estivesse pelo nosso pescoço, e como eram jovens os nossos pés. Havia algas no mar? Iodo, mães-d’água, siris, dejetos, náufragos, sereias? Não, a água estava límpida como nunca mais esteve. Os únicos objetos estranhos no mar eram os nossos pés, e como isso faz tempo. Até que horas ficamos na água? Alguns anoiteceram dentro d’água e estariam lá até agora se não tivessem que voltar para a cidade, se formar, fazer carreira, casar, envelhecer, essas coisas.

Como o cronista explica sua aversão ao verão depois de tais lembranças? É que eu não gostava do verão. Gostava de ser mais moço.


FÁBULA

O Lobo acusou o Cordeiro:

- Você esta poluindo o rio em que eu tomo água.

- Eu?!

- Se não foi você, foi o seu pai.

- Papai?!

- Ou o seu avô.

- Vovô?!

- Ou seu bisavô.

- Impossível. Ele não era daqui.

- Não interessa. Há gerações que sua família polui o rio em que eu bebo. Por isso vou comer você.

- Mas...

- Não tem papo. Prepare-se para morrer.

- Espere!

- Quié?

- Posso fazer uma pergunta?

- Faça.

- Segundo você, meu bisavô poluiu a sua água.

- Certo.

- Meu avô poluiu a sua água.

- Isso.

- Meu pai poluiu a sua água.

- É.

- Então por que eu é que vou ser comido?

- Porque antes eu não tinha uma consciência ecológica - disse o Lobo.

E em seguida fez “Nhac!”.


Domingo, 1º de março de 2009.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.